Eu tenho tantas ideias durante o dia, são tantas as coisas que se passam pela minha cabeça;
ultimamente eu preferi simplesmente o sabor da viagem ao calor da produção, mas sinto muito não ter produzido, nunca ter produzido nenhum artigo científico; dediquei à vida os prazeres, e são eles a contemplação, o aprendizado, as viagens, a cozinha, a música, os bate-papos. Meu amor pela escrita costuma ser derrotado pela chance de um bom papo. Então eu me especializei em um bom papo.
Já sei o final da história: dediquei à mim mesma o prazer do intelecto e o compartilhei dentro de minha clínica e meus círculos de amizade. Sei que ao final de tudo terei um sabor incrível da vitória de ter vivido em mim; pouco saberei desse sentimento de minusculinização do ego chamado necessidade de produzir. Resolvi guardar todas as minhas ideias para mim! Ah! Afinal, ninguém lê mesmo... Aff!
Mas a verdade é que ter dois filhos e gostar de viver não me permitiu sobrar tempo algum para produzir nada materialmente falando. Mas tenho curtido muito até aqui.
Não quero e não vou abrir mão das minhas manhãs de sábado em família, do meu café demorado, das minhas caminhadas pelo parque Guinle sem hora para chegar, para ao final, escrever qualquer coisa. Eu preferi e escolhi o fôlego de um descompromisso para com o papel, o trabalho que pára no papel, para me dedicar integralmente aos pequenos prazeres cotidianos.
Acho que lá na hora final terei sido mais feliz que a maioria.
as apesar desse texto poder ter sido terminado na frase anterior, quero dizer que também através do princípio do prazer eu escolhi retornar aos estudos em psicanálise. E estou mais ligada do que nunca nisso.
Acho que vou publicar meu primeiro artigo finalmente.
Aos 45 anos. Viva.