domingo, 9 de maio de 2021

Um fim de domingo

 De repente segunda.

Mas ainda é domingo dez da noite.

Uma tarde de sexta e seu fim. Um sábado chuvoso fazendo diferença nos fins de semana em farta maioria ensolarados. Uma ida ao zona sul para comprar bacalhau pro dia das mães que foi hoje e já chegou ao fim. Sempre um preparo para um novo amanhã que sempre chega e sempre chegará até nunca mais. Ao menos para quem escreve, porque o sol ainda tem uns cinco bilhões de anos de fusão. Mas a Terra, nossa Terra, tem apenas uns cinquenta mil anos antes da próxima era do gelo, quando inevitavelmente inclinará de um modo que irá gelar até o nordeste brasileiro. Vai ser o fim, um dos muitos fins que esse planeta já viveu. Entre uma era do gelo e outra, entre um meteoro e outro, e entre meus pensamentos de sexta à segunda, vai-se um tempo que na verdade só existe porque viajamos pelo espaço, já que finalmente consegui compreender que o tempo só existe se existe espaço e ambos furam esse tecido que damos o nome de universo, mas que é na verdade a propriedade de uma matéria capaz de deformá-lo e não mais do que isso, e além disso não dá pra entender o que eu quis dizer. Sei. Bem sei. Estou há quase cinco anos tentando entender o que é o tempo e o por que de na realidade poder ser medido em centímetros, quando finalmente  fui capaz de ter o insight de que se o tempo não existe no black hole, é porque a gravidade lá é tão absurda que o tempo pára. O tempo só existe se a gravidade tiver alguma função além de sugar tudo de tão forte. Se houver finalidade, há tempo. A gravidade religa a matéria, e apesar de tudo, o universo está em expansão. Ainda há tempo.

Há pessoas que tem medo desses assuntos cosmológicos. Ficam amedrontadas com o nosso insignificante tamanho frente à imensidão do cosmo. Eu não. Por que ficaria se tudo o que tenho só tenho em meu tamanho? Minha insignificância é o meu todo. E para o cosmos talvez só exista insignificância, e é claro que nem ele está aí pra isso. Ele só prossegue em sua expansão, em sua função destruidora e construtora de mundos. Eu acho fascinante. E sigo o meu fascínio com o infinito na verdade finito mas impossível de pensar, esse cosmológico mundo onde habitamos.

Pergunto-me o por quê de não termos finalmente alcançado a paz mundial depois de tomarmos o conhecimento de que somos poeira de estrelas, e de que as estrelas explodem em supernovas sem desanimar, prontas a entregarem ao espaço que pertencem mais material para os novos planetas. Nesse nosso aqui chegamos a esse status de vida complexa e à essa espécie altamente afetiva e cruel capaz de tudo destruir para tudo possuir, que é a nossa.

Por mais que eu entenda um pouco mais a respeito dessas complexidades e saiba que fora de nossa atmosfera terrestre há radiação cósmica letal e ausência de condições de vida humana, e que a gravidade diminui e com isso o tempo passa mais rápido e os satélites que captam os sinais de gps sejam programados para calcular essa diferença temporal a fim de que não haja diferença entre o tempo localizado pelo satélite e local e o destino onde precisamos chegar, por mais que hoje esses conceitos sejam a mim acessíveis e me ajudem de forma contundente e absoluta a tolerar a realidade subjetiva, eu não entendo. Não entendo tanta dor a que estamos submetidos. Tem havido tanta dor pelo mundo, mas tanta, e isso é tão assim desde que o mundo é mundo que honestamente só nesse momento pude compreender o por que da existência da psicose. A psicose é fundamental. Sem dúvida nos ajuda a suportar a realidade, e é função dos aspectos psicóticos de nossa personalidade, aquela que nos permite realizar essa trajetória sem pirar total. 

Essa pandemia nos transcende em realidade, e na última semana, tornou tudo pior.

A perda de tantas pessoas conhecidas, ao nosso redor, pais de alguém, mães de alguém, filhos, e meu maravilhoso Paulo Gustavo, sobretudo, tornou essa semana muito, muito difícil. A maldade no Jacarezinho, a forma como as pessoas pobres são tratadas nesse país, esse governo monstruoso, afirmando que a “ maioria era mesmo bandido”, além de todo negacionismo em relação à pandemia, me fazem crer que não acordo do pesadelo nunca.

A vacinação segue em ritmo lento e todo o comércio voltou a funcionar normalmente, como se não houvesse pandemia. É simplesmente assustador. O vírus encontrou um celeiro chamado Brasil. As pessoas parecem tranquilas. É muito estranho. Mais de três mil pessoas morrem por dia há uns dois meses, e os restaurantes estão cheios. Restaurante, leia-se: local onde mais se transmite o vìrus Sars Cov-2. É de arrepiar. E essa nova cepa, a P1, acomete pessoas mais novas, entre 40 e 60 anos. Felizmente os vacinados estão hospitalizando muito pouco. Mas desse jeito, com vírus em alta transmissão, será que outras mutações virão? Melhor não pensar muito nisso. Mas isso está na realidade. Recruto meus recursos psicóticos e acho que nada vai acontecer e que Deus vai ajudar? Bom, se a vida de alguém como Paulo Gustavo foi ceifada e a de Bolsonaro e Trump não, resta a desconfiança e um certo medo dos limites do poder divino. Se o bem maior existe, essa realidade que eu temo em não deixar de enxergar, me diz que tudo indica que o mal também existe e anda bastante ativo.

Então volto para a lua e o sol, e os mistérios sondáveis e fascinantes que os fenômenos físicos e astronômicos nos deixam.

É uma sequencia feliz: ando pelo sol e me deito com a lua. De dia sou hétero e à noite não. Inverto os pronomes e brinco com as palavras. Brincar com a existência é uma das maneiras de perseverar nesse mundo sem enlouquecer ou deprimir muito gravemente. 

Sigo em frente porque é premente.

Mas quero seguir por desejo e encanto. 

Em meio ao desencanto, caio e levanto um tanto. Respiro. Olho. Suspiro.

Nesses tempos, encontro o amparo na física incompreendida que me envolve em um certo sentido de cosmologia aplicada à resistência de sobrevivência em meio a quinze meses de pandemia.

Sem catarse. 

Ao fim, algum sorriso. Um alento em letras.