Estive diante de um dia de sol chamado domingo. Vi-me acordar sobre um manto de aconchego espiritual banhado por um azul celeste sem nuvens, fatos de claridade indubitável que em minha alma renovou algumas esperanças em meio à uma pandemia que parece infinita e o perecer de uma amiga dos tempos de tenra infância, amada e adoentada em longínquas terras, distante de suas raízes e de sua própria língua.
Mas respirar hoje foi bem mais feliz.
Busquei spices e arremeti meus desígnios culinários em meio a repolhos, batatas, lentilhas, berinjelas, tomates, cebolas, alhos, muita cúrcuma, gengibre, pimenta dedo de moça, mostrada em grãos, cumim seeds, cilantro ( na verdade o daqui é coentro mesmo), e um aromático arroz basmati. A couve flor ficou de lado.
Céu azul e temperatura perfeita, mix de spices e vinho branco espetacular fizeram o meu dia um tanto vibrante inside e outside, cheio de aromas e sabores dessa culinária indiana que me delicia e me provoca muito prazer. Música brasileira, Alceu Valença, Dominguinhos, tudo perfeito. Brincos de pérolas.
Então vem o revés. Vem o cansaço decorrente do crescer alcoólico, vem a azia terrível, vem a culpa tenebrosa por não ter lido o que eu deveria ter lido, por ter bebido o que eu não deveria ter bebido, por ter comido dois biscoitos bis, por ter medo de passar mal, por estar fazendo uso de remédio pra micose que é minha há quase dois anos. Ou seja, eu me proibi beber durante o remédio e bebi! Então tive de lidar com esse sentimento horroroso de culpa.
Então aqui vim. Eu sabia que a escrita me ajudaria a entender esse mal estar.
É uma pandemia que já dura um ano e meio. É um cotidiano de pessoas se odiando. É a instalação da lógica politicamente correta nos meios de comunicação. É chato demais tudo isso.
E dá-lhe coerência nesse castigo coletivo chamado pandemia. Precisamos nos afastar uns dos outros. Precisamos nos manter afastados. Por que exatamente precisaríamos estar juntos se todos se odeiam tanto?
Cada vez mais eu me volto para o meu mundo.
Não há tempo para ler jornal porque o tempo se desfaz entre os olhos e há tanto ruído ao redor e tanto ainda que eu quero ler, que eu vou retomar aos temperos, à beleza dentro de uma casa que é a minha, e sim, vou tentar amaciar esse inconsciente punitivo e inconformado.