quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Uma mãe

 Hoje estive com uma mãe do alto de seus oitenta e poucos anos saudosa da filha morta em um acidente aéreo há 15 anos junto a mais duas amigas. Juntas iriam passear por uma das capitais mais lindas da Europa.

Essa mãe cuidou dos dois filhos adolescentes da filha desde então, precisando manter-se firme e atenta. Dois anos depois da perda da filha, seu marido e pai da filha, também partiu devido a um câncer. Segundo a mulher, fruto da dor da perda da filha, o que não é nada difícil compreender.

Ocorre que essa mulher me fez chorar junto à ela, sem que ela percebesse meus olhos ligeiramente marejados. Toda vez em que me encontro diante do amor e da dor dos outros, dor verdadeira, sinto junto. Algo acontecesse nessa hora onde os olhos penetram nesse ponto profundo de humanidade que nos liga de volta ao outro que a nós fala e confia.

Ela me procura por não sentir vontade de viajar com as amigas, por querer ficar em casa ao invés de se divertir. Ela se sente culpada por desfrutar da companhia dos filhos da filha, quando a filha é quem deveria estar usufruindo.

Ela sente falta da companhia feminina uma vez que são quatro os netos, o filho, e somente uma neta, então ela se vê rodeada de meninos e sente a ausência de sua melhor companhia feminina, a filha que se foi.

Me contou que não quis abrir o caixão embora a tenham perguntado. Pra quê? Ela me pergunta. Sabia que talvez pudessem ser ossos, uma vez que a filha foi uma das últimas a ser encontrada. As duas amigas foram umas das primeiras. 

Como era mar e a filha amava o mar, a mãe entendeu que não haveria problema em seu corpo sem vida no mar, ficar. Não fez questão, ainda que muitas famílias tenham feito.

Ela não entende porque tanta tristeza está aqui presente com ela. Parece mesmo que o lado que sobreviveu precisou se dissociar do lado que junto com a filha, morreu.

E ela me contou o que a fazia ter forças: um sonho. Em uma sala, a filha estava sorrindo muito rodeada por uma luz e ela correu imediatamente para abraçá-la, quando ela sobe ao teto (ao céu?), reluzente e sorrindo plenamente, dizendo (sem falar) que estava muito, muito bem. Foi o único sonho em 15 anos. 

Meu momento de maior compaixão à essa mãe foi quando ela se sentiu culpada por estar entre os netos, por sentir que quem deveria estar ali era a filha dela, e não ela. Mas o que fazer diante de realidade impossivelmente real assim?

As linhas escritas foram feitas para guardar um pouquinho de um momento em que duas mulheres, distantes por suas naturezas, buscam compreender a dor e vislumbrar qualquer lampejo de consolo que, em nosso caso, pertence exclusivamente ao universo feminino onde mães e mulheres se encontram.

Como mulher, eu digo que há coisas nesse universo, coisas dos sentimentos, que somente a companhia de mulheres e suas palavras são capazes de compreender.

O feminino possui algo do sagrado quando uma mulher vive o amor de mãe.