O avesso da chatice deve ser o que eu sinto nesse exato momento. Mas falo de seu avesso, e não de seu contrário.
Quando quase tudo a minha volta produz em mim o sentido de chateação, aborrecimento, mais do mesmo e profundo tédio, é bem provável que eu esteja falando de mim mesma. Mas não.
Jamis me senti tão dinâmica, positiva, desneurótica e satisfeita comigo mesma.
Ocorre que o mundo tal qual ele vem se apresentando, e penso que talvez ele tenha mudado pouco e eu muito, é que me deixa profundamente entediada.
As propagandas, e suas "lições de vida" me entendiam. A ideia de que eles sabem o que de fato poderia me interessar me entedia. (E nesse aspecto é possível que um passado de muitas privações materiais tenha me transformado em alguém mais blindada contra anúncios de marketing).
A Rede Globo me entedia muitíssimo. Eu não assisto à Rede Globo. Mas leio O Globo e é impossível morar no Brasil e não ser assaltado pelas imagens da emissora nos consultórios médicos e dentários, nos restaurantes, e em outros locais. Ou seja, ainda que a pessoa não assista a Globo, isso não significa que frequentemente você não seja invadido de algum modo por ela. E eu sempre me assombro pelas representações medíocres de muitos atores, principalmente os mais novos, e, quando tenho a infelicidade de me encontrar diante da novela das nove. Mas não quero parecer com essas opiniões arrogante ou intelectual. Simplesmente sinto, penso e respiro assim. Considero tão agressiva as temáticas das novelas, tão apequenadas diante dos verdadeiros dramas humanos, que realmente me choco. No entanto o mais sintomático é a audiência. As pessoas assistem. Isso é o mais inacreditável. Talvez elas não se sintam agredidas, porque se o sentissem seria mais grave ainda; ou então relaxam diante de situações inverossímeis; ou apenas desejam espiar suas culpas, raivas e outros sentimentos considerados menos nobres nas situações e vilões encaranadores do próprio mal em si. Enquanto o mal está no outro, não está em mim.
As chamadas para as principais notícias também são entediantes. Entre outras razões elas procuram sensibilizar o que resta de humano em seus telespectadores, manipulando seus medos e desejos das formas mais dissimuladas e evidentes que alguém poderá testemunhar. Há todo um conjunto de transmissão de valores embutido em cada cena não-espontânea que pretende imprimair algum significado moral em uma catástrofe mais que previsível. Não há a pretensão de reafirmar o espírito humano de superação, parece haver todo um jogo de câmera e reportagem empenhado em cristalizar o sentimento de que a vida de alguma forma não é nada, acrescentando o medo, paralisando as pessoas. Isso é estratégia de dominação, jamais de informação real.
Pode até parecer que escrevo de forma a alimentar teorias conspiratórias. Não dou a mínima. Não é de hoje que essas teorias encontram-se presentes naqueles que procuram repensar o mundo e nas razões pelas quais as pessoas estão tão atemorizadas e desintegradas de seus sentimentos comunitários que a fazem sentir- se vinculadas a um meio cujas razões de existir trancendem aspectos materias e de suposto crescimento intelectual.
O que verdadeiramente mantém as pessoas de alguma maneira imbuídas de um sentimento de vinculação é o permanente exercício de comunicar- se uns aos outros compropósitos comuns que beneficiam a todos. Dessa forma, o permanente espírito midiático que promove, através do medo e de um conjunto de juízos de valores equivocados por diversas razões, ajuda a persuadir o ser humano em seus já presentes medos existenciais.
Se as pessoas soubessem a infinidade de coisas boas disponíveis, hoje com a internet, ao seu entretenimento, não perderiam seu precioso tempo com bobagens tão inacreditáveis. Se metade das horas gastas diante da televisão e do facebook fossem utilizadas em prol do bem comum, nosso mundo seria talvez, diferente. Não por um ativismo obsessivo, mas somente pela maior disponibilidade que as próprias pessoas se permitiriam. Hoje, há espectáculos, livros, filmes...todos na internet. Não é fantástico? Isso por si só já é material mais do que suficiente para que as pessoas pudessem cada vez mais pensar por si mesmas e menos por jornalistas e emissoras de televisão que parecem de fato empenhadas em proclamar o apocalipse e o absoluto sucesso do mau gosto.
Talvez eu não esteja chata porque eu sou chata simplesmente.
O mundo padrão está se tornando muito mais do mesmo, mesmo. E assistir a maioria das pessoas sucumbindo a ele é muito preocupante. E chato.