sábado, 21 de novembro de 2015

Discordei do Dapieve

Gosto do Artur Dapieve  e de algumas de suas colunas em O Globo, embora não tenha lido muitas nos últimos tempos pois desconfio que a opção de DAPIEVI NOS ÚLTIMOS TEMPOS TENHA SIDO A DE DAR MAIS ATENÇÃO à música do que a outros temas.
Mas hoje fiquei feliz com  o título de sua coluna de ontem: " Sempre teremos Paris".
Porque sempre amaremos Paris. E teremos dentro de nós tudo o que amarmos para sempre. Não. Não é a história da Polyanna. É assim que guardo minha mãe e meu pai em mim, só como exemplos.
Mas Paris, ao contrário de meus pais, está viva. E linda e bela e de posse dos valores mais admirados pelo mundo que ama a vida: a liberdade, o vinho, a poesia, a literatura, a igualdade entre gêneros, e sim, a fraternidade que insistentemente jamais se transformará em uma fratura social. Para todos os gritos e intenções ao radicalismo que apenas aumenta o sentimento de exclusão, haverá mais franceses a lutar pelo contrário, mesmo que nesse momento eles estejam com medo e que transitoriamente venham a apoiar um grupo mais à direita conservadora. Não tenho dúvida, eles voltarão, pois serão capazes como nação de refletir sobre os próprios erros. Essa característica é admirável, e não faz parte de uma utopia minha. Faz parte da história da França.
Dito isto, preciso radicalmente discordar de Dapieve quando ele diz que em janeiro deste ano, muitas pessoas criticaram o jornal Charles Hebdo quanto às suas sátiras religiosas. Dapieve erra em dois pontos: chama esses críticos de patrulhadores do politicamente correto. Não somos. Não fomos. E sei que posso parecer arrogante ou presunçosa ao dizer isso, mas Dapieve comete um equívoco ao não discriminar as posições que criticavam essa atitude como posições não-contraditórias em condenar os ataques, mas criticar as ofensas ao Islã. Não há nessa atitude nenhum patrulhamento. Existe uma crítica. Existe uma opinião. Não há indulgência ao terrorismo praticado. Não há tentativa de justificar o ato de matar as pessoas. Existe uma crítica ao que o tema liberdade de expressão significa. Não acredito em liberdade de expressão sem reflexão, sem cuidado, sem dúvida. Desde que o mundo é mundo, nunca foi inconsequente tudo dizer. Aquelas mortes foram compreendidas como o resultado de uma criação de condições psicológicas favoráveis à loucura. Para a loucura, não há lei.
Não há defesa para eles em relação ao Charlie Hebdo. Mas fazendo uso da tão propalada liberdade de expressão, ouso dizer que aquelas charges são de mau gosto, absolutamente desrespeitosas, desnecessárias. Não acredito em liberdade de expressão que ofende tiranicamente a fé alheia, a mãe alheia, o pai dos outros, a feiúra de alguém, a sexualidade de outrem, a pobreza de muitos, a riqueza de poucos, ou seja lá o que for. Simplesmente a minha liberdade de expressão não se sobrepõe ao pedido de quem quer que seja ao me dizer:" Não diga isso. Você me ofende." É preciso parar. Porque o meu desejo de rir da cara do outro não se encontra acima de ninguém. Desculpem humoristas, piadistas, jornalistas... que tanto me fazem feliz e a milhares de todos nós, mas o seu protagonismo e talento não importam mais do que o direito de alguns grupos serem respeitados. Na verdade, vocês não precisam disso. O talento é uma arma maior e melhor do que qualquer outra.
Sendo assim, não acho nada razoável que em nome do que quer que seja, o Islã ou qualquer outra religião seja ridicularizada com veemênia, intensamente, grosseiramente e repetidamente, como o Charlie Hebdo fizeram. Qual a linha então? Não é nada difícil não ignorar a justificativa para os advérbios utilizados. Basta olhar o jornal.
O outro ponto que identifico ter sido um erro de análise do Dapieve foi ele ter relacionado os ataques de janeiro e as críticas sofridas pelo jornal à época aos ataques de hoje e à possibilidade de que agora as pessoas que criticaram o jornal venham a ter seus pontos de vista reconsiderados. Não acontecerá. Manter o ponto de vista de crítica ao jornal Charlie Hebdo apenas demonstra o fato óbvio de que nunca houve contradição. Quem no mundo tem simpatia pelo Isis, meu Deus? Aquele grupo é insano, cruel, incapaz de dialogar.
Não, meu caro Dapieve, não há anomalia ou politicamente corretice em criticar as charges ignóbeis do CH. Se não formos capazes de separar o emocional envolvido em uma questão como essa, nunca entenderemos uns aos outros. Liberdade de expressão não pode ser um dogma. E ao defender aquelas charges como liberdade de expressão inscreve-se a ideia no rol de um radicalismo ideológico dos mais profundos, porque mais uma vez teremos um princípio regendo todos os outros. Nada mais religioso do que isso.
Quando a liberdade de expressão se coloca como a conquista civilizatória mais importante entre todas as outras, ela ignora as consequências de suas atitudes e passa a se justificar por si só. Não há nada mais radical do que isso. E isso, meu caro, é a justificativa utilizada por todos os fundamentalismos. Sentem-se tão acima de todos os outros, que nada pode ser questionado.
Quando dois fundamentalistas que se negam a dialogar se encontram, o resultado é a guerra total.
Agora, o desejo de guerra total chegou aos loucos armados de ódios infinitos ( e desejo de poder infinito).
Ou conversamos entre nós e decidimos deixar de lado nossas certezas para viver nossa alegria de viver, ou nos arriscaremos a apostar nossa capacidade de riso e alegria juntos aos mortos em vida que sabem que terão que morrer conosco para vencer essa guerra, pois como já disse Russel Brand, amamos mais a vida do que a morte, e eles amam mais a morte do que a vida. Pertencer ao ISIS já é estar morto em vida. Por isso, não tenho dúvida de que em meio a essa insanidade, precisamos manter nossa capacidade de diálogo e amor ao que de melhor nossa civilização foi capaz de construir: a palavra e seu mais profundo e maior significado, o de manter a construção de uma vida livre e democrática como a utopia essencial de suporte à realidade imperativa, brutalizada e sempre vital.