terça-feira, 12 de julho de 2016

Rotina

Tem sido uma vida para alcançar uma rotina justa.
Andei tanto e quanto meu olhar e coração aguentou para achar essa chave que me abre a casa da alegria cotidiana, e que também caminha embalada na crença de que uma boa dose de disciplina de dentro para fora nunca matou ninguém.
A dança da rotina veio para alegrar o dia-a-dia daquela moça que um dia viveu amordaçada ao medo de fazer tudo errado de uma só vez.
Quanta tolice! Os medos vem em gotas e os erros são perenes. Não adianta fugir.
Andou, andou, andou.
Chorou, chorou, chorou.
Mas não gritou. Na verdade, só pelo time da seleção brasileira.
No parto não foi preciso, pois não houve o prazer da dor que liberta a ambos.
Então o grito ficou lá, contido em sua imensa condição de não existir jamais a não ser dentro.
Minha física não é de mentira, meu espanto nunca me enganou.
Perambulei ao lado dos sonhos. Construi meus muros de solidão, desapego, desassossegos e preguiças. Mas esbaforida também fui de contramão apanhar com a mão meu sonho de menina. Descombinei as fragilidades para me espreguiçar mais ainda.
Radicalizei a loucura e tornei-me psiquiatra.
Virei médica dos doidos mais humanos e normais que conheci.
A estrada é menos dura e a rotina me dá contorno.
Hoje adormeço e amanheço dentro de mim.
Acordo narrativa. Desativa. Caprichada. Ligeira raramente.
Sou dona só mesmo da menina que um dia fui.
É com ela que eu sonhava.
E é ela quem me carrega no colo da vida enquanto o meu corpo aos poucos fenece de um tanto de vida, de  um tanto de dor, de um pouco de danos, de um bocado de amor.