terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Eu sou muitas saudades

Perto da dor do mundo, a minha não existe.
Junto aos desvalidos do mundo, somos a minha cara quebrada de tanto sonhar e sofrer.
Mas o meu sofrer hoje é outro. É um sofrer de quem sofre sem dor.
Sofrer sem dor é saber da tristeza do mundo, do outro, das guerras, da fome, do maltrato e assassinato dos animais e da ecologia, da gente negra do meu país e da minha cidade.
Ainda assim e com tudo isso, sinto felicidade por estar viva.
Sinto tristeza com os caminhos do mundo, com essa doença mental chamada neoliberalismo avançando vida e morte afora e adentro, com esse ápice de desumanismo em prol da funcionalidade e de uma liberdade que significa verdadeira prisão.
Eu penso nos passarinhos e na literatura clássica que busco e leio e vejo neles a lindeza e a realidade de uma subjetividade generalizada que entende o mundo sempre no fim. É claro que nesse último ponto os passarinhos estão fora.
Mas o que tem feito com que eu não mais me desespere é a ideia de verdade que hoje eu carrego.
Não estamos aqui para sermos felizes. Estamos aqui para buscarmos felicidade, mas sobretudo estamos aqui para ser os gratos pela vida.
Somos testados o tempo todo e nossas ilusões são uma a uma, destituídas de lugar. Quanto maiores forem as nossas ilusões, maiores serão os nossos sofrimentos.
Fazer um exervício maduro de compreensão de nosso papel terciário na vida dos outros e protagonista em nossa própria, libertando-se pouco a pouco de um conjunto de necessidades materias e também afetivas,é o nosso papel principal.
"A vida não deixa de ser uma longa perda de tudo o que amamos." Vitor Hugo
Se nós não entendermos a mensagem real da vida que é: tudo passa, até a própria vida, e sua saúde mental e felicidade depende das condições desenvolvidas a fim de lidar com a perda da juventude, dos pais, amigos...e entender que essa também é a vida, você estará perdido em um mar de tristeza...em algum lugar...em algum tempo desses dai que nos leva...
Os mais fortes são os que tem condições de separação. Sempre serão.
Eu não pretendo ser forte. O meu desejo é não ser movida por algumas ilusões que restam.
Quero iludir-me com a pretensào da alegria sem justificativa e a despeito das tristezas do mundo.
Quero acreditar que oxigênio suficiente no nariz é muito bom pra começar o dia, que nosso ímpeto de autodestruição faz parte de um plano coletivo inconsciente para acabar um dia com todas as tristezas que restam  e que não fomos capazes de dialogar.
Pois o mundo só está de pé porque de algum modo ainda somos capazes de dialogar. Porque poder de destruição suficiente já existe para acabar com tudo por pelo menos uns quatro países.
Mas o que resta a nós que aqui estamos e temos gente que nos ama a não ser poder olhar o futuro com esperança e o presente com amor?
Se a razão de viver chama-se gratidão, como posso olhar o céu e não me emocionar?
Os momentos de paz eu vivo quando sorrio.
Os de alegria quando estou junto ou sozinha com memórias afetivas.
Os de contentamento quando olho a montanha verde.
Os de plenitude quando vejo o mar.
Os de paixão quando estou com meus meninos e algo simples e total acontece.
Os de volúpia quando estou em segredo.
Os de tristeza quando sinto que a perda é maior do que a vida.
E não.
A vida é sempre maior do que a perda, com excessão da guerra ou da tragédia que podia ser evitada.
Ainda assim, a vida insiste e sempre insistirá em ser maior no tamanho e a depender da história, algumas sobrevivem à tragédia e à guerra.
 Esses são os verdadeiros professores e as pessoas mais interessantes que costumam haver.
E por isso também mais uma vez serei e sou grata.