Precisamos rever tudo, toda a nossa concepção de vida, cidade, solidariedade.
Algo muito sério e de significado evidente deve estar ocorrendo para que crianças estejam empunhando facas para roubar um celular. Não existe um assalto. Existe um ataque.
Por que pessoas estão atacando outras dessa maneira? Eu acredito que a resposta esteja por ai: desespero.
Eu me recuso a um olhar que monstrualiza essas crianças e adolescentes. É claro que há pessoas más, crianças más, adolescentes maus. Mas são minoria! Porém se esses ataques ganham o cotidiano como forma de ganho imediato, estamos todos, doentes como sociedade. E se essa sociedade não percebe a dor de pessoas que passaram a ganhar espaços nos jornais através de um permanente ataque, e passa a exigir das autoridades maiores punições a essas pessoas, ela permanece em sua ignorância e em seu desejo de não olhar para o outro. Esse estado de coisas só pode ser o resultado de uma sociedade amplamente ignorante, individualista e corrompida em seus valores de humanidade. Tudo isso denuncia sua própria conivência com tudo o que ela diz mais repudiar: a violência.
Esses jovens nos colocam face a face, faca a faca, com a nossa condição de pertencimento a uma coletividade que a todos abarca, pobres, ricos, classe média.
Somos, necessariamente, um todo.
Precisamos descer de nossos prédios e adentrar as comunidades pobres buscando entendê-los, estar com eles. Eles precisam de nós, e nós precisamos deles.
É preciso reagir com humanidade a situações de brutalidade que envolvem crienças e jovens invisibilizados por todos nós.
Se essas pessoas não forem ouvidas e suas básicas necessidades não forem contempladas, estaremos todos reféns de todo tipo de violência.
Reproduzindo aqui uma frase que li essa semana e que me comove sempre que a recordo: " Se a paz não for para todos, ela não será de ninguém."