Quando a violência vem de onde menos se espera, ou seja, do lugar onde deveria vir a proteção e o cuidado, a experiência é ainda mais violenta.
Quando essa violência utiliza as armas da legalidade, é mais violenta ainda.
Quando essa mesma violência manipula a situação de violência a fim de que seu estrago assuma ares de reparo, temos também um caso de perversão.
Essa violência não é moral nem imoral.
Quando um grupo de pessoas busca tornar invisível através de um conjunto de poder o ato violento, temos um tecido social corrompido.
E quando os bons silenciam a violência em função do medo, da inércia ou da anestesia, é porque aquilo que pode nos trazer esperança também se perdeu.
O ser humano não foi feito para praticar o bem. O bem é uma consequência do mal. O mal foi necessário para que homens e mulheres se expandissem sobre a terra, conquistando e delimitando territórios, domesticando a natureza, e a sua própria natureza.
O bem é o avanço, é o além da sobrevivência instintual, é o receber de um olhar amoroso que um dia, valeu a pena. É a retribuição por ter sido visto e reconhecido como alguém que gerou sentimentos em outro alguém e por inato retorno, passou a acreditar que valia a pena retribuir a compaixão e a amorosidade.
O mal é a permanência na incapacidade de olhar o outro, é a estabilidade na vida instintual que a todos devora pelo caminho, é a denúncia de que foi incapaz de amar e ser amado em verdade, é a crença na função desesperada de ir ao encontro à vida através da voracidade.
Assim os seres humanos tem vivido, em uma eterna gratificação instintual, em uma incapacidade de amar brutalizada por um conjunto social materializado e desconectado de uma essência verdadeiramente humana, natural, amorosa e vital.