No mesmo momento em que o mundo se volta para os Estados Unidos onde um rapaz sul-coreano fuzilou 32 pessoas em uma universidade na Virginia, acho oportuno falar sobre o crescimento em 5 vezes da produção de armas no nosso país, entre 2002 e 2006. Nosso país encontra-se entre os 5 maiores exportadores de armas de fogo do mundo.
Não encontrar uma associação entre essa produção crescente e a também crescente violência urbana é no mínimo ingênuo por assim dizer.
Além do aumento da produção, grande parte da venda de armas no Brasil retorna ao próprio Brasil, o que sinaliza um controle de fronteiras deficiente, colocando em questão a Polícia Federal e o o próprio exército. Nosso "forte" são as pistolas e revólveres comuns. Outra coincidência serem essas as principais armas que matam suas vítimas, geralmente por motivos, infelizmente, cotidianos, como os assaltos à mão armada.
Seres humanos não nasceram para andar armados, seres humanos não vivem para se defender. Não em um mundo construído para ser entendido e construído como civilizado.
O melhor dos mundos, se existisse, seria para sempre estragado caso seus habitantes passassem a portar armas. Somos instintivos. Não dominamos e não é o caso, o de dominar nossos instintos, para enfim usarmos armas de fogo. Não, nós não fomos feitos para isso. Fomos feitos para descobrir a palara, a linguagem e o diálogo. Não podemos aceitar uma sociedade que tem o poder da morte garantido pela Constituição. Em pleno século XXI é impressionante que ainda haja gente que defenda a pena de morte como uma punição eficiente em termos de redução da criminalidade, ou pior, como a punição merecida em alguns tipos de crimes, como os hediondos. Eu não vejo castigo pior para alguém do que a perda da liberdade. E não só isso, vida (?) na prisão. Qualquer uma. Para mim, viver anos em uma penitenciária é pior que qualquer morte. É morrer dia após dia um pouco e cada vez mais. É assistir passivamente sua alma ser corrompida, humilhada e ultrajada todos os dias, além dos castigos corporais, a ameaça constante sobre o corpo. Será que isso não é o bastante? Para quê a morte? Qual o serviço da morte? Reduzir o número de prisioneiros e com isso o dinheiro do Estado gasto com as prisões? Encontra-se com isso a justificativa? Há quem ache que sim. Eu não.
"Nunca, em tempo algum, punição alguma melhorou o mundo ou evitou que crimes fossem cometidos". Filme Não matarás, de Kristof Kielowsky.
Para poucos, muito poucos, a legislação evita o crime. Para a maioria ela simplesmente inexiste.
Não existe para nossa população jovem favelada um Estado. Eles mal tiveram acesso à escola. Talvez só conheçam a polícia como uma força do Estado. A maioria desses jovens nasceu há pouco menos de vinte anos, em um Brasil cada vez mais capitalista, globalizado e desigual. Mais sobretudo, um país cada vez mais armado, e hoje muito armado. Esses jovens cresceram longe do convívio em sociedade, vendo seus amigos e familiares serem trucidados pelo aparelho do Estado. Eles não tiveram bolinho de aniversário, seus pais ( o pai), quase que inexistem, suas mães trabalham fora como domésticas ou operárias...não conhecem regras minimamente razoáveis de convívio civilizado, não dimensionam a importância do outro, nem a sua. Não podem sentir a dor pelo outro. Criamos uma geração inteira armada e sem perspectiva. Aliás, sua única perspectiva, revelada não só dentro da favela por seus pares, mas sobretudo pelos meios de comunicação e pela pequena distância entre o ter tudo e o não ter nada em um cidade como o Rio de Janeiro, produz nesses jovens o desejo de seguirem em frente com seus impulsos, com um dos objetivos mais primitivos da existência humana, o de possuir alguma coisa. E possuir alguma coisa nos dias de hoje tornou-se a grande mola social. É dentro dessa posse que se encontra a possibilidade de transparência social, de conquista amorosa, de respeito. Em uma sociedade onde todos valem pelo que possuem, não é difícil compreender esse fenômeno tão atual como a violência urbana. Em uma sociedade onde os valores remontam ao primitivo do ser humano, onde esse ser humano que menos possui encontra-se armado até os dentes de fogo e desejo de existir por alguma razão, e onde essa razão é traduzida por um bem material ou status social, não seria um equívoco enorme pensar que o quê de fato precisamos são leis mais rigorosas?
Precisamos ter cuidado, muito cuidado com isso. Toda situação medo, onde todos nos sentimos vulneráveis, há o perigo de chegarmos ao ponto de nos tornarmos radicais, encontrando na lei e na ordem puramente, as políticas com as quais nos identificamos. Uma massa amedrontada apóia ditaduras de força. Precisamos ter muito cuidado.
Hoje a manchete do Globo em relação ao assassinato de 32 jovens no campus da universidade americana, foi: " A maior tragédia das armas". Como se a maior tragédia das armas não estivesse bem aqui no Rio, ou bem antes, nas duas guerras mundiais, ou depois, na Guerra do Iraque.
As mortes de ontem nos Estados Unidos, por um atirador jovem resumem bem o ódio e a estupidez presentes naquele país. Temo que nossos jovens façam o mesmo com a divulgação maciça dessa notícia. Loucos sanguinários perseguem notoriedade.
Hoje não escolhi algo ameno para escrever. Às vezes não é possível.