Eu tinha 5 anos quando percebi todos à minha volta completamente absorvidos por um jogo de futebol. Era um dia de sol, muito claro. Perguntei a alguém o que era aquilo, fiquei sabendo tratar-se da Copa do Mundo. Quando haveria outra?- perguntei. Ah, só daqui a 4 anos..., me responderam, dizendo ainda que eu teria então 9 anos! Fiquei louca que chegasse, menos pela Copa e mais para fazer 9 anos. Mas acho que o jogo que eu assistia naquele dia era o Peru X Argentina, quando o Peru "abriu" as pernas para a Argentina e tomou sei lá quantos gols. Era plena ditadura aqui e lá na Argentina também (1978), e parece que era importante que a Argentina ganhasse a Copa, tipo pro povo ficar mais feliz, essas coisas. Nós já tínhamos as nossas na nossa ditadura.
Chegou a copa de 82. Seleção inesquecível canarinho. Pintamos a rua. Eu saía mais cedo da escola para assistir os jogos do Brasil. Cantávamos "voa canarinho, voa. Mostra pra esse povo que és o rei...". Que lembrança maravilhosa...Morava então em pleno subúrbio carioca, em uma época que ficou no passado, mas onde não havia qualquer preocupação com balas perdidas, tráfico ou qualquer dessas realidades tão tristes. E olha que não faz tanto tempo assim, são 25 anos! E completamente diferente... mas esse é outro assunto.
Primeiro jogo da famosa copa: Brasil X União Soviética 2 X 1 Brasil! Junior sambou na frente do goleiro soviete...inesquecível. Como também inesquecível a seleção. Não me lembro de todos, mas acho que da maioria: Telê Santana (técnico), Waldir Peres (goleiro), Leandro (ponta-direita), o indescritível Serginho (acho que zagueiro, conseguia ser pior que o Ronaldo Gordo e o Roberto Carlos na última copa), Zico, Falcão, Sócrates, Junior e o gatinho do Éder. Não me lembro dos outros, talvez Cerezo, não tenho certeza. Quanto orgulho dessa seleção! Como era bom torcer por ela!
Pulo para as quartas-de-final, porque não me lembro dos jogos, só o primeiro e o último. O fatidico jogo contra a Itália, aquele em que o Zico perdeu o pênalti. Lembrar disso me causa taquicardia, me remonta à emoção daquele dia horrível em que o horripilante Paulo Rossi tomou de vez, um lugar na minha vida. E a seleção italiana de futebol o lugar também eterno de infinito repúdio, o maior de todos, maior que o do Flamengo. Mulheres são muito emotivas.
Chorei muito naquele dia. Chorei o dia inteiro, porque a minha seleção canarinho tava fora da copa, e eu era uma criança de 9 anos que via seu sonho acabar, o sonho de ver o Brasil campeão do mundo... teria que esperar 12 anos.
Só retomei a paixão pela Copa no ano passado, e acompanhei todos os jogos quando chegamos às oitavas (jogos do Brasil e todos os outros). Não quero comentar as características da nossa seleção de 2006, todomundo está cansado de saber, mas sei que fui idiota, ou melhor, apaixonada. Quem se envolve com o futebol, perde conexões neuronais importantes. Quero dizer que, apesar de todas as evidências, eu achava que o Brasil poderia vir a se sair bem. Inclusive no jogo contra a França, já no segundo tempo, quando nossa seleção dava todas as mostras de mediocridade, eu considerava possível uma belíssima vitória. Não havia em mim qualquer richa (é assim?) relativa à derrota para a mesma França em 98, (naquele dia o Gordo teve convulsão ou sei lá o quê, jogamos mal e merecemos perder, não foi como em 82). Até o momento do também fatidico passe de Thiery Henry para o magnífico Zidane, (enquanto o Roberto Carlos ajeitava o meião devido a uma coceira), fazer o único gol da partida...e lá se foi o sonho do hexa naquela eliminação humilhante.
Acabou o jogo. Acabou a Copa para o Brasil. Parreira recebeu logo depois uma proposta milionária e pra lá se foi. E que fique por lá.
Torcer pra quem? Portugal. Ficou nas semifinais.
Grande dia de final de Copa: França X Itália, a abominável Itália de sempre. É claro que eu torci para a França, e é claro que quase não acreditei quando vi Zinedine dando aquela cabeçada no italiano babaca, Matarazzi. Quanta tristeza ver aquele jogador no dia de sua aposentadoria dando adeus daquele jeito. Detesto justificativas morais para atitudes não-racionais como aquela, portanto prefiro não falar sobre isso especificadamente. No entanto, considero um ato de covardia não-física o que aquele italiano fez, falar algo que ele sabia que iria mexer com o cara, no dia em que aquele cara era a estrela da partida máxima do futebol.
Pronto, time francês desfalcado, golpeado psicologicamente. Perderia nos pênalts. E aconteceu. Para mim a França foi campeã. E que se dane a Itália.
Até 2010 vou fazer o possível para estar na África do Sul.