Já se olhou de verdade? Sem maquiagem, sem pentear o cabelo, sem arrumação qualquer; e se viu feia, feia mesmo? Certamente que sim. Como certamente já se olhou e se viu linda, bela como nunca. Isso é possível? Claro que sim. A beleza não depende do material apresentado; depende de como se olha e depende do estado de espírito. Agora, além disso, tal olhar sobre si mesmo é capaz de exigir um grau de sinceridade e disponibilidade para se ver o que se tem no lugar daquilo que desejaria que estivesse ali. É através desse olhar que uma dificuldade maior se coloca.
Novamente a pergunta de um jeito mais explicado anteriormente: Você já se olhou mesmo e viu o que não gostou? Ou o olhar que tens de ti mesma te coloca sempre muito mais bonita do que realmente és?
Nesse momento doido de culto à aparência, da perseguição de um "padrão" que jamais será um padrão, pois poucos o possuem, de forma que a palavra padrão tem sido usualmente utilizada de forma errônea..., há que se cuidar para se cuidar, porque mora-se no corpo.
Mas pensemos um pouco melhor no quanto de patológico pode ter nisso tudo. Não bastasse a loucura do mundo em que moramos, temos agora, sobretudo por parte das mulheres, uma busca muito doida pelo não-envelhecimento. Vejo mulheres de peles estranhamente finas, seios curiosamente empinados, com algum grau de espanto. Só recentemente é que tomei conhecimento, melhor dizendo, me conscientizei de que grande parte das mulheres corrigem-se cirurgicamente demais, usam botox demais, malham demais... Para quê? Ficar mais bonitas e atraentes deve ser a resposta. Não há nenhum problema em se utilizar um recurso ou outro da medicina,da estética, para ficar mais bonita. O que me causa espanto é a espécie de norma que surgiu a partir disso. Vem cá, não dá pra ficar legal, se sentir bem gordinha, com pelanquinhas e ruguinhas? Ou não pode? Reforço a importância do auto-cuidado, de uma boa alimentação, atividade física regular, um bom filtro solar... Mas gente, tá demais!
Parodiando Fernando Pessoa, onde há que há gente nesse mundo? Ou ainda, onde anda a auto-estima feminina? Tristemente, vejo que para muitas mulheres ser mulher é manter acesa a capacidade de sedução sempre. Manter os seios durinhos, a pele lisinha, a coxa durinha.- É bacana, mas não dura para sempre.
Eu vou acreditar que gente pode ser bonita sempre. E que os traços da maturidade guardam uma beleza do tempo que tem sido apagada por essa idéia de uma estética persistente no corpo da juventude.
Como uma mulher de sessenta anos bem cuidada, razoavelmente cuidada, pode ser bela!