segunda-feira, 25 de maio de 2015

Os dois centavos

     Situação comum: Você tenta pagar alguma coisa com dinheiro no Rio de Janeiro. Você dá uma nota. Qualquer nota, qualquer uma, de cinquenta, de vinte, de dez, de cinco ou de dois reais! O sujeito sempre pergunta: Tem dez centavos? Tem cinco centavos? Tem um real? Tem vinte e cinco centavos?
Situação comum 2: Você compra algo que custa 3 reais e 48 centavos. Quanto você receberá de troco em centavos? Nunca 52 centavos, certo? E quando você pede os centavos? Você é um ET, não é mesmo? E deve ter surgido sabe-se lá de onde, das profundezas da antipatia, do quinto dos infernos, do abismo da chatice do mundo. Se for  mulher, deve ser mal amada, sozinha, infeliz; se for homem deve ser bicha ou corno.
       Ser brasileiro tem esse caráter implícito: uma passividade em nome de uma boa vizinhança cortês  ; uma dissimulação de compreensão do outro atrás do balcão em nome de uma pseudo superioridade. Eu compro e esse sujeito ganha muito pouco, portanto não posso exigir nada dele. E o funcionário deve olhar e pensar: como alguém pode ser tão miserável por causa de dois centavos?
      Não são os dois centavos.
      Os dois centavos significam grandes empresas precificando seus produtos com valores quebrados incompatíveis com a moeda que circula. Significa que elas ganham em cima de cada trocado. Existe a legislação que protege o consumidor que obriga que a empresa, quando desprovida de troco, pague valor maior ao consumidor.
Eu realmente estou cansada dessa passividade à brasileira.
 Experimente dever dois centavos a um banco por dez a anos. Quanto ficaria a conta final?
Mas não só por isso. Se o brasileiro não consegue reivindicar seus centavos, o que não dizer de contas maiores, direitos maiores?