Uma das maiores dificuldades em analisar o momento político atual é organizar o cenário ideológico e territorial quanto ao poder vigente.
É preciso compreender antes de qualquer coisa, que temos um partido no poder há doze anos chamado de Partido dos Trabalhadores. Em sua história, uma luta que se inicia no sindicalismo dentro da ditadura militar e que muitos anos depois, leva sua principal liderança à presidência da república. Esse partido fomentou em milhões de brasileiros o sonho talvez de brasilidade, de tornarmo-nos um dia aquilo que só o Brasil poderia vir a ser. E isso não é pouco. Muito pelo contrário, pois tornar-se aquilo que se pode ser, ou seja, tomar consciência de seu próprio desejo e avançar objetivamente em busca não é para muitos. Pois que a vida atropela e esmaga sonhos e ideais desde que o mundo é mundo e desde que o paradigma de viver passou a não ser mais a luta por territórios, mas sim pela construção de uma nação. Correlacionando ao estabelecimento do indivíduo como pessoa, poderia ser dito ao nascimento e desenvolvimento psíquico de cada um e a construção de uma vida em si.
Temos ouvido as mais variadas teorias, hipóteses, teoremas; e muito raramente podemos encontrar alguma coisa desprovida de um ingrediente insidioso e paralisador: o ódio. Há tanta paixão nesse tema político... E todas resultam em um assunto preferencial: o ódio ao PT e o desprezo por seus eleitores. Essa cascata especulativa ( e nesse momento não adentro aos elementos reais pois não pretendo incorrer ao elemento que em nada dignifica nossa luta conjunta por um país melhor), gerou um estado coletivo mental de intolerância inédito.
Há duas correntes vigentes principais: os que acreditam no fim dos tempos e os que acreditam na luta entre os bons e os maus. Essas duas correntes excluem a mais importante delas, e que por isso mesmo não figure entre as principais: os que não se encontram nem em um campo, nem em outro. E essa terceira parte encontra-se perdida buscando um campo de ideias que não propague a arrogância, seja ela intelectual ou política, assim como a infantilizada teoria de que somos nós contra eles, pobres
contra ricos, elite contra pobres. Pois se um país é feito de ideias e de seu povo, conosco não seria em nada, diferente.
Não somos os Estados Unidos. Não somos a Europa. Não somos chineses. Não temos glamour ao olhar de muitos de fora e de dentro, mas tampouco somos pobres em cultura ou espontaneidade. E queremos ser o quê, afinal? Queremos o glamour estrangeiro, o chá inglês, a sofisticação francesa à mesa, o charme italiano ao vestirmos nossos corpos, a competência alemã ao gerir uma empresa? Naturalmente que dispensamos o jeitinho que compromete, a espontaneidade deselegante e um estado de corrupção de coisas e de almas que a todos empobrece e adoece. Somos brasileiros. Não somos o chá da tarde inglês, a sofisticação da culinária francesa, mas somos o samba, a bossa nova, musicais maravilhosos, comidas saborosas, e por que não dizer, grifes lindas e ultra brasileiras também. Somos criativos o bastante para vivermos em um país campeão em desigualdade social e ainda assim estarmos dentro das dez maiores economias mundias ( o que, diga-se de passagem, não quer dizer grande coisa). Mas o tal complexo de viralatas, como genialmente denominou Nelson Rodrigues, nos faz querer ser tudo, menos o que somos. E pode-se melhorar ou piorar o que se é, mas não se pode ser
o que não se é. Não seremos nunca os EUA, a Alemanha ou a França. E quando se deseja ser qualquer um grande outro que não nós mesmos, podemos ser no máximo, cópias apequenadas como são todas as imitações. E por um lado digamos, indulgente com o Brasil, fico feliz em não fazermos parte de uma história de guerras e extermínio como grandes nacões civilizadas e de primeiríssimo mundo fazem. Mas não quero com isso entrar no coro do bom contra o mau que simplifica a existencia e coloca contrariamente aos ideais de simplicidade um mundo que se divide e não consegue enxergar as exigências que o mundo tal como é hoje impõe.
Pois que o sonho não acabou, mas a realidade é imperativa, e com ela temos o dever de olhar para a história de um desenho político que tem aprofundado a crise brasileira e enfraquecido de forma contundente os brasileiros.
De certa forma, e com isso pode sobrevir um tanto quanto a arrogância, a mídia brasileira tem sido ingênua ao noticiar os fatos políticos mais importantes. Não há retórica mais poderosa que a utilizada pelos partidos de esquerda. No jogo político atual, não há inocentes de nenhum lado. Mas quem já participou de algum tipo de movimento de esquerda sabe o quão duro é o jogo, e o quão poderosa é a retórica. Essa é uma velha escola.
O resultado das eleições de 2014 foi um tiro na culatra levado por toda a propaganda contrária ao propagado pelo governo. E a persistência desse posicionamento midiático em relação aos mal feitos governamentais consolida a ideia, ou quem sabe a melhor palavra venha a ser o ideal, de que o mundo permanece dividio entre bons e maus, nós e eles.
O PT traiu o ideal do partido e de milhares de filiados. Privilegiou uma inclusão pelo consumo e oficializa o desmatamento na Amazônia. Olha o mundo como em 1970 e se esquece, ou o que é mais provável, não percebe que ele mudou. Mas adotar esse discurso previsível e que cabe no momento politicamente correto de hoje, que é o de odiar o PT e esgotar as várias possibilidades de analisá-lo do ponto de vista histórico, de suas construções e destruição, é também adorar um lugar de conforto, arrogância e possivelmente um lugar que também exclui toda uma conjuntura que possibilitou a reeleição de Dilma Roussef, pois procura esvaziar de valor os milhões de brasileiros que assim o fizeram. A grande mídia, ao adotar novamente essa estratégia em pleno 2015, pode no lugar de produzir um resultado de informação e mudança, contribui para a reeleição de Lula em 2018.
Como iniciei alguns parágrafos atrás, não há grupo com maior capacidade de retórica que a esquerda. Quanto mais a mídia noticia a desgraça, além de incutir certo grau de paranóia e desesperança na população, mais munição dá aos estrategistas de campanha.
Eu faço aqui minha modesta contribuição aos candidatos da oposição. Para ganhar a confiança do eleitorado indeciso, abracem o compromisso do respeito à autonomia universitária, defendam a universidade pública e cuidem dela se eleitos. A grande guinada na campanha eleitoral de Dilma Roussef não foi o bolsa família ou as políticas sociais. A mobilização responsável por sua vitória deu-se nas redes sociais ao comparar o governo de FHC e os governos petistas no tratamento dado à universidade pública e à educação. Isso foi letal para a não eleição de Aécio. Existe ainda nesse país uma elite intelectual com forte poder de atuação nas mídias sociais, uma nova mídia que será determinante mais uma vez nas eleições de 2018.
E é da universidade pública brasileira que estão nossos intelectuais mais renomados, que não integram os clubes de economia e que sabem falar os dois idiomas, o economês e lígua do povo. É na universidade pública onde as pessoas que transitam em ambos os mundo se encontram, o mundo da"elite", e o mundo dos "pobres".
O candidato com aspiração ao planalto em 2018 precisará falar esses dois idiomas.
Há um terceiro grupo não contemplado por nenhuma das duas vias que hoje se apresentam que está ávido por ouvi-lo.