terça-feira, 19 de maio de 2015

Você precisa de comida por quê?

Há pouco mais de uma semana li em uma entrevista com uma celebridade do sexo feminino que ela ingeria 900 calorias de comida por dia. Fiquei estarrecida. Como assim alguém consegue se satisfazer com 900 calorias por dia? E não era só isso, claro. Tinha mais. Ela dizia que, caso engordasse 2 quilos partia para a dieta das 600 calorias. O quê é isso, minha gente? Uma fatia de bolo tem 600 calorias.
Então me vieram muitas perguntas. Se alguém se satisfaz, digamos assim, com 900 calorias, é porque a satisfação verdadeira deve vir de outro lugar. Mas isso é apenas uma hipótese pois sabe-se perfeitamente que muita gente vive sem satisfação alguma, diga-se de passagem. E também sabemos muito bem que a maioria das pessoas no mundo vive com menos de 900 calorias porque não tem comida. Sendo assim, comer ou não comer é a questão. Uns por escolha, outros por destino.
Dito isso, qual seria então o lugar da satisfação? E havendo lugar, deve ter origem. ( mas esse nível de postulação fica para depois pois não é o objetivo uma análise psicanalítica do caso).
Facilito-me o luxo de olhar superficialmente esse estado de coisas em um primeiro momento, pois que falo de um estado superficial de coisas nesse momento. Dessa forma, realizo um pouco o desejo de quem quer ser visto e admirado de cima.
"Mas se eu ignoro consistente e progressivamente minha fome, eu também nego e secretamente procuro lidar com outros desejos. Serei a senhora em negação de desejos em nome do olhar que receberei de fora e do reconhecimento retardado de quem eu sou, ou melhor, daquilo que represento. Porque escolhi a fome para que a forma seja senhora de mim e eu senhora da fome. "
" Alimento-me do olhar de admiração e desejo que recebo diariamente, e os anos que passam transformam-me em uma espécie de divindade. Intimamente só eu sei. Sou mesquinha e miserável naquilo que me dou de comer, não poderia ser diferente para aquele que me dou a comer-me. Tenho dificuldade com o prazer, pois a negação da fome faz mais parte de mim do que eu agora sei sobre meus desejos. Algumas vezes preciso de comprimidos para me ajudar nessa abolição instintual. Mas sou linda."
É claro que essa fala nunca existiu e faz parte de minha insistência em tentar entender pessoas capazes de grandes sacrifícios. Assim como não entenderemos nunca a existência da vida e da morte, não seria mais simples e fácil tentar entender como alguém pode passar a vida sem comer um chocolate e um prato cheio de macarrão? Não, não vale falar que come um pedacinho de chocolate a cada mês. Comer dentro da conta é viver em uma terrível prisão.
No entanto, não é só isso.
Uma adulta de mais de 1,70m não pode comer 900 calorias. Essa conta não fecha.  Existe uma coisa chamada metabolismo basal. Precisamos comer um mínimo para mantermos as atividades diárias mínimas, como dormir, respirar, falar,etc. Menos do que esse mínimo ficamos desnutridos, doentes e morremos. Se a pessoa continua viva há anos, corre , pula e trabalha, alguma coisa não está certa.
Ma so que não está certo, definitivamente, é a obsessão em ser lindo, jovem, magro, maravilhoso, perfeito, correto, ajuizado, magnânimo, justo, feliz, ufa...! Mundo patológico perfeito!
Sociedade constituída por exemplos de sucesso agarrados aos princípios mais frágeis de viver.
Tempo de anorexia como projeto de admiração e esforço em um mundo faminto por comida e mãos que se abracem.